[Século
XX, algures nos anos 90]
Aos
domingos a seguir ao almoço visto o fato de treino roxo e verde e os sapatos de
ténis azuis, a Fernanda veste o fato de treino roxo e verde e os sapatos de
salto alto do casamento, subo o fecho éclair até ao pescoço e ponho o fio de
ouro com a medalha por fora, a Fernanda sobe o fecho éclair até ao pescoço e
põe os dois fios de ouro com a medalha e o colar da madrinha por fora, tiramos
o Roberto Carlos do berço, metemos-lhe o laço de cetim branco na cabeça, saímos
de Alverca, apanhamos os meus sogros em Santa Iria de Azóia e passamos o
domingo no Centro Comercial.
A
Fernanda senta-se atrás no Seat Ibiza, com o menino e a Dona Cinda, o senhor
Borges ocupa o lugar ao meu lado, de Record no sovaco, fato completo, gravata
de flores prateadas e chapéu tirolês, ajuda-me no estacionamento das Amoreiras
a tirar o carrinho da mala e todos os automóveis do parque são Seat Ibiza,
todos têm mantas alentejanas nos bancos, todos apresentam um autocolante no vidro
que diz: Não me siga que eu ando perdido, todos possuem uma rodela Vida Curta
no guarda-lamas direito e uma rodela Vida Longa no guarda-lamas esquerdo, de
todos os espelhos retrovisores se pendura o mesmo boneco de peluche, todos
exibem junto à matricula com o circulo de estrelinhas da Europa a mesma
rapariga de Stetson e cabelo comprido, todos trouxeram o Record, os sogros e o
filho, todos devem habitar em Alverca e todos circulam a tarde inteira no
Centro de forma idêntica à nossa: adiante a Fernanda e a Dona Cinda, de raposas
acrílicas, a coxear por causa de uma unha encravada, empurrando o Roberto
Carlos que esperneia, desfeito num berreiro, com a chupeta pendurada na nuca
por uma corrente, e o Senhor Borges e eu vinte metros atrás, preocupados com a
carreira do Olivais e Moscavide que perdeu em Alhandra apesar de ter comprado
um avançado cabo-verdiano ao Arrentela e que em vez de jogar à bola leva as
noites a mariscar tremoços na cervejaria, de brinco na orelha, no meio dos
amigos pretos, com o tampo da mesa coberto de canecas vazias.
Como
a Fernanda e a Dona Cinda param em todas as montras de móveis e boutiques a
bisbilhotarem quinanes e kispos, acontece enganar-me e trocá-las por outra
sogra acrílica, outra mulher roxa e verde e outra criança de laço, e sucede-me
passar horas num banco, sem dar pela diferença, com uma Fátima e uma Dona Beta,
a planear as prestações de um microondas e de um frigorífico novo, seguir para
Alverca, jantar o frango da Casa de Pasto e a garrafa de Sagres do costume, e
só na terça-feira, quando vou a sair para a Junta, a minha esposa informa,
envergonhada, que mora em Loures ou na Bobadela, o Roberto Carlos se chama
Bruno Miguel, e deu pelo engano, há cinco minutos, porque a minha Última Ceia é
de estanho e a dela é de bronze. Claro que corrigimos o erro no domingo
seguinte, em que volto para casa com uma Celeste e um Marco Paulo no Seat, a
que juntei (será o meu Seat Ibiza?) um autocolante que deseja: espero não te
conhecer por acidente.
Esta
semana a minha mulher chama-se Milá, o meu filho Jorge Fernando e ando a pagar
um apartamento em Rio de Mouro. Como esta sempre cozinha melhor que as outras
não faço tenções de voltar às Amoreiras. Se ela gostar de telenovelas só
tornamos a sair daqui a muitos anos, quando o miúdo usar um fato de treino roxo
e verde, e eu encontrar no armário do quarto um casaco de raposas acrílicas e
um chapéu tirolês, e escutar lá em baixo a seguir ao almoço, a buzina do Seat
Ibiza da minha nora. Como nessa altura devo andar a dieta de sal por causa da tensão
qualquer peixe grelhado me serve.